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André Paiva Amoêdo

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Meu pé é feião.
October 07

O Sótão e a Casa Nova

É o bom dia ao passar

Uma tela do fim da tarde

O sítio das férias de infância

O boletim do fim do ano

É encontrar velhas cartas

Pensar na casa que virou prédio

A piada que foi engraçada

A pessoa que não voltou

É...

Estamos sempre perdidos

Um dia depois

 

Ter outros bons dias

Ficar pro início da noite

Trabalhar pra conseguir

Buscar novos desafios

Não parar de escrever

Plantar florestas

Rir de qualquer coisa

Encontrar-se e fazer alguém

No dia seguinte
September 28

Transplante

O que fazer se a noite cair no chão,

Se as borboletas nadarem de costas,

Ou se a visita não gostar de refrigerante?

O que pintar se a arte é o quadro e não a parede,

Se os lápis cabem nas latas de spray,

Se as cores do sangue são verde e amarelo?

Como esperar se o vazio é desesperador?

Onde dormir se o sono não vem?

Por que se eu der corda pra trás nos relógios, eles só quebrarão?

 

O alerta pra cair fora vem de dentro

Dói dizer pela convicção

Mas dor de ouvido dói mais

Não se ouve nada

Os carros andam sobre a calçada

As casas param pra ver

Quem passa na rua feito multidão

Porque não se percebe só

 

Não adianta anunciar em outdoors

September 27

Seu Paiva é remador

Minha kombi morre subindo o morro

Ô, gasolina sacramentada!

Liga esse motor na tomada

Se não der tempo de chegar, eu corro

 

Segura, peão, o cavalo!

Que o bispo vai até a torre

O casal real está porre

O que será que lhes falo?

 

Daqui, eles não me ouvirão

Ô, rave barulhenta. Que raiva!

Cadê a água benta, Seu Paiva?

Ah! Levei pra natação...

 

Pegue o bumerangue do pombo-correio

Que eu tenho uma tática boa

Voarei até lá de canoa

O Remo disse a que veio

September 26

Paternal

Não se casa com parente

O que faz um homem sem filhos

Se não é par, não é primo?

Espera por crianças adultas?

 

Dormir pouco não importa

Chegou a hora de se doar a alguém

De ter uma cama de casal com cercadinho

 

Cansei de ver o mundo por meus olhos

Quero olhar pra outros que ainda vão descobrir

E assim, quem sabe eu aprenda?

Sinto que a vida está se acabando num corpo vivo

Quero outra pra viver por ela, pra ela

Quero-te ver nascer, amor que eu desconheço

Juro ser pai e mãe
September 25

Funcional

A ponta do lápis no meio do papel

Muitas vezes só deixa grafite

(a gente pensa que sabe ler porque decifra as letrinhas)

A poesia se disfarça nas palavras

Vai até onde conseguimos ver

Ler... mero detalhe

 

Na prova, caiu uma questão de metáfora

Deixe em branco que não fica errado

É divertido desmentir dicionários

Mas danoso dormir desacreditado

De duvidar do dito,

Desabotoado do divã

Até amanhã!

 

Hoje, a vida real cedeu o lugar, mais uma vez.
September 24

Quando Xis Tende a Zero

Um pouco de mistério

Eu ainda espero de mim

Frases que me adocem a boca

Que me pausem a fala

E que, muito depois,

Ainda me façam pensar

 

Um sopro no ar

Pra se misturar

Pra impulsionar

E levar pra longe

Como brincar de telefone

Alguma palavra solta

Que pouse em ouvidos

Que repouse em mentes

Até despertar e fazer sentido

Para os sentidos de outra gente

 

Calado, absorvo e elaboro meus novos ruídos

Nada que não se tenha dito

Mas com as minhas impressões

Até que ponto eu existo sozinho?

Até a esquina do teu caminho
September 23

Acordar à noite

Conhecer ninguém

Desbotar as cores

Calçar trilhos em trens

 

Acordar com o vento

As palavras vão

Ouvem em resposta

Silêncio e solidão

 

Sem companhia

O escuro me zomba

Sonho com luz

À espera de sombras

Que serão

Espelhos opacos no chão

 

 

 

09/05/05

 
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