André Coruja's profileO Meio do MundoPhotosBlogLists Tools Help

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    August 31

    Todo Rumo Possível

    Corre, pisa, vai depressa

    Que é perseguição

    Desvia de rotas de fuga

    Forjado alçapão

     

    Sufoca deixar a vida pra trás

    Lamento as flores que nascem pra enfeitar caixões

    Enquanto a nuvem escura não vai

    Destinos se perdem uns dos outros, várias direções

     

    Não existe mais onde bater

    Posso fechar os olhos pra correr

    Sem ver nada, ninguém me vê

    Não tenho alvo e não quero ser

    Mais um

     

    Eu lembro do último natal

    Da moça bonita dos doces da esquina

    De esfregar os sapatos na terra

    Eu lembro da família que eu tinha
    August 30

    A Visão das Aves

    Aves, avisem às aves que, às vezes, as vozes as visam.

    Há visitação ao voar... sem asas.

     

    Tanto ar

    Pra quê só respirar?

    As nuvens do solo não mudam

    Pra ires aos arcos, tu andas

    Dê um balão

     

    Do alto, as cercas não separam

    E os muros desenham as cidades

    Só mais um degrau, jogral das construções

    Que mapas usam os aviões?

     

    Estamos avisando às aves

    Que queremos a visão das aves.

    August 29

    O Ente

    Um ente que eu nunca vi ocupou meu lugar

    E eu lutei pela paz de tanto amar

    Agora eu já não sei o que é paz

    Como a do colo dos pais

    Sei que tem que ser diferente

    Mas quando é preciso mudar, de repente

    Dói

     

    Saio pelos fundos

    Em outra condução

    Novos rumos

    Imposta condição

     

    Envio cartas pra casa ao lado

    Pois há algo que eu possa fazer pra mudar

    Ainda que a escrita nada diga a quem não quer ler

     

    Você pode se mudar?

    Porque eu estou ao lado do ente

    Estou ao lado do ente

    Ao lado do ente

    Do ente

    E dói

    August 28

    Por Acaso

    Hoje é a última chance de viver hoje

    Levantar cedo pra dar tempo de aprender... a nascer

    Do outro lado é que dá vontade de ir

    Descer pelo corrimão, na contramão

    Não! É por ali

    Se a reta entorta na curva

    A gente se desequilibra e cai

    No bar da esquina

    Ta tudo embaçado na vida

    Pra seguir, a próxima avenida

    A que não passa condução

    A que não passa ninguém

    Pra aprender que não é por acaso

    Que se nasce só

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Em geral, os escritos têm sempre a mesma temática. Parecem sempre os mesmos, com arrumação diferente.

    Que chato! =]

    Fazer o quê?

    Continuar a escrever, oras.

    August 27

    É Dia

    Menina

    Eu já mandei estudar

    Põe o livro debaixo do braço

    Calça a sandália de salto baixo

    E vai com o pandeiro na mão

     

    Saindo de casa

    Tranca o portão

    Dobra a esquina

    Desvia do carro

    Olha a bicicleta

    Atravessa na faixa

    Muda de calçada

    Sobe no bonde lotado

    Licença daqui

    Empurra de lá

    Repete pra quem não ouviu que você quer passar

    Cuidado com o pé

    Tira essa mão daí

    Vagou o lugar

    — Pois não! Pode sentar.

    E pesca um pouquinho

    Puxa a cordinha

    Desce na chuva

    Corre pra não se atrasar

     

    No fim-de-semana

    É dia de aula

    Na escola de samba

    August 26

    Pelo que Resta

    Da última vez só faltou festa

    Quando você, empolgada, quis pasta

    Se não fosse alguém dizer basta

    Talvez você não estivesse mais nesta

     

    Quem segue e supõe que despista

    Não faz idéia de quanto isso custa

    Financia o próprio desgaste

    E comemora em fotos de revista

     

    Os pobres, com uma vida de bosta

    É isso que deixa mais triste

    O tráfico monta nas nossas costas

    Não seriam os novos nazistas?

     

    Por uma sociedade justa

    Numa visão realista

    Você que só usa na sexta

    Atravesse pra outra pista

    Quer causa? Abrace esta

    Pegue a camisa e vista

    Deixe de ser besta

    Que a vida nunca desiste

    De viver

    August 25

    Um Discreto Soluço

    Enquanto o fundo do mar for de terra

    Não vou navegar na rede

    Enquanto tiver que cavar pra ter água

    Vou preferir um sorvete

    Depois do ar-comprimido

    Tomarei pílulas de respiração

    Se aparecer fogo-amigo

    O epitáfio será de carvão

     

    O Papa diria que o mundo está foda

    Se chamasse palavrão

    Sangue na roupa dá nódoa

    Pano-de-chão

    Há possibilidades remotas

    De regeneração

    Voto de pobreza vale ouro

    Que venha o perdão

     

    Enquanto cortarem pés na serra

    Teremos que ir às montanhas

    Os sonhos mais impossíveis

    Dependem do grau de barganha

    Quero fotos coloridas

    De um casal preto e branco

    Só caio em mim

    Se for de um barranco
    August 24

    Desviar do Foco

    Quando a poeira for muita

    Em pedaços inteiros

    E sacudir não livrar

    Tem que procurar cor no escuro

    Enxergar através de muros

    Materializar o belo onde nada está

     

    De onde vem a cor do que é natural,

    Do que não se pinta?

    Toda tinta sonha em viver num quadro

     

    Pra merecer a luz

    Tem que abrir os olhos

    Pra todo lugar

    Se parecer feio, olhar

    Procurar novidades no antiquário

    Esquecer um pouco do horário

    Quem criou regras decidiu por si

     

    De onde vem a ordem do que é normal?

    A exceção do caos

    Bata um auto-retrato!
    August 23

    A Bula

    A brasa ainda resiste, brava

    Escrevo versos com as pontas de carvão em bulas de remédios

    Letras garrafais

    Ainda me resta a luz que entra pelas frestas

    O clarão do poste é artificial

    Segunda-feira: fim-de-semana

    Um pedaço de inverno caiu sobre a cama

    Todo dia espero a noite pra ver se a chama desiste

    Se uma nesga de calor ainda existe

    Escrevo meus lamentos no papel que não entendo

    Eu sei o que não sei

    Mas não sei como aprender

    Hoje eu não vou usar desodorante

    August 10

    L.E.R.

    Uma visão turva

    Quase cega da realidade clara

    Perambula decorando cores

    Conformando-se com formas

    Prestando atenção em tudo, em todos

    Pra seguir

    E, só assim,

    Conseguir

     

    Pra firmar o nome

    Jurar quem é

    Mãos sujas

    Nem sempre há um papel pra limpar

    Letreiros passam devagar

    Pegue o bonde andando

    O cair da noite

    Não é tarde demais

     

    Não se deixar convencer

    Por repetidos erros

    Ter força pra se aventurar

    Num novo mundo

    E dele partir pra um futuro

    Bem melhor

    August 09

    Mais que o Pouco

    Quero sempre mais

    Mais que os cais dos litorais

    Que as mazelas sociais

    Ou que a chatice dos normais

     

    Quero mais

    Que as prosopopéias astrais

    Que um conveniente Satanás

    Que valores materiais

     

    Quero mais

    Do que lembrar de anos atrás

    Do que governos federais

    Do que apanhar de capataz

     

    Mais

    Que os tesouros das Minas Gerais

    Que as preguiças matinais

    Ou que chuvas torrenciais

     

    Quero

    Entender por que vos calais

    Por que a gente não faz

    Um pouco mais

    Pela paz
    August 08

    LIBRA

    Camas, colchões antigos

    Não deixam dormir

    O caminhão de mudança

    Mudou de caminho

    Estás aqui

    Esqueça o que ficou

    Não traga lençóis brancos na bagagem

    Eles vestem os fantasmas do passado

    Manchas de sabor encarnado

    Deixe lá

    Venha nua

    Proclame-se novamente pura

    Que vestidos vão te vestir
    August 07

    PRETENSO QUERER

    Nem sempre a cura anda longe da dor

    Hoje eu sei o caminho de cor

    Mas só penso saber

    Pretenso querer demais

     

    Todo dia é de aprender

    E noite de praticar

    Talvez... nem só...

    Alguém mais estuda na mesma escola

    A gente se cruza andando na reta do corredor

     

    Se a bala não é de festim,

    Antes do estopim,

    Ainda pode ser de festinha

    Doce como choro de alegria

    Suave como a mão de quem coleta flores

    O susto que antecede uma surpresa

    Esculpir pedras, ver estrelas

    Que só longe podem brilhar

    Quando aqui chegou

    Ela já se foi de lá

     

    A gente se cruza caminhando sobre ponteiros digitais

    Uma ponte suspensa

    Até construirmos o chão

    Lá e cá

    August 06

    Ambulante

    Eu ando sem parar

    Passo direto por teus sinais

    Atravesso as cidades

     

    Eu olho pra frente

    Conheço gente

    Que fica pra trás

    E que tanto me traz energia

    Pra continuar, todo dia

    A abrir caminho

    Ampliar domínios

     

    Quando eu chegar aí

    Só vou passar

    Mas obrigado por estar

    E ser você, tão bem, no seu lugar

    Feliz de quem acha onde ficar

     

    Até logo!

    Vou lá

    August 05

    CALDEIRÃO

    No alto da piscina tem um avião

    Dança, que esse mundo é louco

    Gira, gira, gira junto com a gente

    Tira o sal da terra e se joga no mar

    E vira de ponta cabeça quando o sol estiver no Japão

     

    No sino da igreja tem um coroão

    Canta pra dançar um reisado em cortejo

    Corte e costure as ruas do vilarejo

    O padeiro é quem tem a faca e o queijo na mão

     

    O problema dessa panela é depressão

    Foi tanta mistura que ela chorou até transbordar

    Com certeza era lágrima

    Tinha gosto de lágrima

    Se o problema do mundo é depressão,

    Que se exploda!

     

    Na foto 3x4 tem um penetra

    Ninguém sabe de quem é a documentação

    Quando o ônibus chegar, eu te chamo

    Ei! Ei! Ei! Passou...

     

    No quintal de casa tem um busto de bronze

    De um tal barão de “sei lá”

    Era do governo, mas é usucapião

    Só sossego quando descobrir o 1º e o 2º lugar

     

    No final do maremoto tem um pote de ouro

    Espera lá pra ver... o fim da novela

    O telefone toca, é conta pra pagar, é a vizinha fofoqueira.

    Aaaaaaahhhhh!!!!

    Alguém tira a panela do fogão?
    August 04

    Errante

    Pode ser só um pedaço

    Se tiver que passear descalço

    Aceito o que sobrar

     

    Depois do caos

    A gente espera de pé

    A poeira sentar

    Pra não levar nada

     

    Só sobramos nós

    Itinerantes a vagar

    Não se pode mais errar

    Por aí

     

    Sem paredes se encontrando

    Não há um canto sequer

    Campo aberto

    E eu me jogo lá

    Sob o tempo

    Pra vencer

    August 03

    DESPERTADOR

    No dia em que eu acordar pra vida

    Vou ter que ver água brotar do chão seco

    E flores nos arranha-céus

    Correr muito quando não ventar

    E congelar as nuvens na forma que mais me agradar

    Senão não vale a pena deixar de ser

    Prefiro não merecer

    Lá fora, o mundo não é assim

     

     

     

     

     

    Para o La Pupuña

    August 02

    Deixa Ser

    Agora sinto que só
    estou em companhia estranha
    Deixa de bobagem e vem logo
    que o tempo é a maior distância
    Bom é estar junto sempre
    até o fim
     
    Antes de encostar os lábios
    meu sopro já te beijou
    e ele te tocou, como pele,
    antes, até, de revelar quem és
     
    Seja brisa ou ventania
    seja tudo pra mim
    como um fragmento do planeta
    que se desprende e flutua
    sem desencostar da tua
    Suave furacão de nós
    August 01

    Vovô

               A cada 5 ou 6 anos (às vezes pula), os ciclos de datas se refazem e nós temos a oportunidade de remontar a situações vividas naquela mesma situação — eu acho muito legal quando o aniversário da minha mãe cai no Dia das Mães, por exemplo —. Hoje está sendo assim, comigo.
               Há seis anos eu pensei que ia acordar para meu primeiro dia de aula do último semestre do convênio. Vários dos meus amigos de turma o fizeram e, para eles, deu tudo certo. Eu fui acordado por minha avó materna com um cuidado que eu interpretei como "fofo" da parte dela, pois parecia aquele zelo de acordar criança que precisa de incentivo para ir estudar. Para mim, o cotidiano de anos que eu já entendia como obrigação e como tarefa importante que era: o meu dever. Eu não ia ficar dormindo e deixaria de ir para a aula...
               A gente pensa que tem um caminho, um itinerário, e que aquilo é tido como certo. Mas há desvios.
               Em 1º de agosto de 2000, eu me despedi do meu avô paterno. Fui a última pessoa a encostar nele. Dei o último beijo antes da tampa se fechar.
               Desde então, eu sigo o meu caminho, o meu itinerário. A parada na casa dele não é mais igual. Nada é igual. Eu lembro muito, muito.
               Eu me pergunto como as pessoas lidam com a ausência. Cada um deve ter um jeito diferente. No meu caso, chorei muito alguns meses depois, com saudade. Choro que não vinha nos primeiros dias. A minha forma de lembrar, hoje, é a mesma. Lembro dos 16 anos que passamos juntos, do cheiro, do timbre, das coisas que ele dizia, de quando me carregava e de quando já era eu que o carregava. Boas lembranças que não se apagam com o tempo, ainda bem. Mas não penso — e acho que aí está uma grande chave para a conformação — como seria se eu tivesse ido para a aula naquele dia, se minha irmã tivesse ido. Este dia mudou nossas vidas. Mas soubemos mudar.
               Eu o amo.